Jogos dos Povos Indígenas

Os Jogos dos Povos Indígenas representam um fenômeno atual, complexo e congregam conhecimentos e significados sócio-culturais ancestrais e contemporâneos. Os setores da sociedade de maior participação na concretização dos eventos são: Comitê Intertribal - Memória e Ciência Indígena (ITC) e o Governo Federal – Ministério do Esporte. Outras parcerias também são realizadas com a participação do Ministério da Educação e da Cultura, os Governos Estatuais e Municipais através das Secretarias de Esporte e/ou Turismo, assim como ONGs, mídia e universidades. Estas têm um caráter acadêmico, propiciando palestras e pesquisas.

Fazendo uma retrospectiva do início deste movimento, o líder Mariano Marcos Terena  deixa claro os objetivos que os impulsionaram nesta trajetória. Na palestra realizada no Simpósio de Cultura Corporal e Povos Indígenas Na Universidade do Centro Oeste, Paraná (nov. 2001) relata alguns fatos:

[...] Fomos (Carlos e Marcos Terena) falar com o Ministro da Educação e perguntamos... Ministro será que dá para a gente trazer um índio aqui para mostrar que ele é um bom arqueiro?”“Trazer um índio no meio dos estudantes?”– perguntou o Ministro. Sim, só para mostrar como atira uma flecha sem “doping”, sem anabolizante, deixa a gente atirar um flecha”.

....[no evento, “o índio flecheiro desceu na linha para fazer a demonstração, eu mesmo) não conhecia esse índio flecheiro, ele disse - ‘não, pode por aqui mais de 50 metros’- porque é importante escolher e poder ver onde vai acerta. Então, ele não mirou como todo arqueiro faz, ele olhou assim e atirou. Ele acertou uma melancia (alvo). Está muito grande, traga outra!’. Trouxeram uma fruta menor até chegar na maçã.  Para aquela gurizada, estudantes, jovens, era uma maneira dele quebrar um pouquinho o conceito de esporte. O que é esporte? Porque ele estava usando um arco tradicional, estava utilizando uma metodologia tradicional, mas com o objetivo que não era o tradicional, porque lá na aldeia aquele índio não faz aquilo como esporte. Ele faz para acertar uma ave, uma anta, um peixe no meio do rio, que é mais difícil de acertar porque tem aquela coisa de ótica. Então, nós a partir daquele momento começamos a trabalhar esse conceito de Jogos dos Povos Indígenas.  (Terena, 2003, p. 19-20).

Então conversaram com o Pelé quando ele era Ministro do Esporte “Pelé será que dá para fazer uma olimpíada?”, a gente usava esses termos mais comuns, se falasse Jogos Indígenas todo mundo ia pensar quer era campeonato de futebol. Queríamos usar a expressão “Olimpíada” juntando 30 povos no Brasil, dos 230. Foi a primeira experiência, na cidade de Anhanguera, em Goiânia. Foi a primeira experiência, na cidade de Anhanguera, em Goiânia. Lá aprendemos muita coisa com os próprios parentes indígenas. (Terena, 2003, p. 20-21).

Na palestra menciona diferentes aspectos que fundamentaram os eventos posteriores, tais como: não se preocuparam com o detalhe da idade, o índio velho:

“vem para fazer uma demonstração também, para a sociedade não indígena, o significado de ser índio. Então tem a entrada das equipes e cada equipe vem trazendo uma canção vem fazendo sua cantoria, vem mostrando seu lado lúdico, suas pinturas”.

Aponta também a diversidade do estado atual dos povos

..[...]  tinha um índio dançando com sandália havaiana, ... [...] o pessoal que no jogo de futebol quer usar chuteira, a camiseta do Corinthians, quer usar camiseta de São Paulo. Terena diz “tudo isso tinha que deixar acontecer, mas sem perder o controle, porque o objetivo para aquele índio era participar dos Jogos Indígenas, como competidor, mas também para resgatar a sua língua, sua identidade, como um pouco daquela nação e também para resgatar suas cores, a sua identidade de povo indígena (Terena, 2001, p. 21).

[ toda vez que a gente faz este evento procuramos fazer num local onde tenha rio, tenha mata, onde a gente sabe que aquele índio precisa entender que ele está  indo para a cidade não para ganhar de outro parente] . (Terena, 2001, p. 22).

Os jogos de âmbito nacional são  denominados de Jogos dos Povos Indígenas, atualmente na sua X edição. Os jogos estaduais ou municipais têm diferentes denominações como os Jogos Indígenas do Pará, na sua 3º edição e, regional como a Festa do Índio e mais recentemente Festival das Culturas Indígenas em Bertioga – São Paulo, na sua VII edição e o I Jogos Interculturais de Campos Novos do Paresi – Mato Grosso, entre outros.

Esses jogos tornam parte da história e do cenário das cidades aonde ocorrem. Os objetivos “celebrar e não competir”, jogar sem dopping, sem anabolizantes, sem roubar, respeitando as diferenças, trazendo a mensagem de se superar sem competir a qualquer preço estão presentes nos eventos Terena (2001 e 2007). Representam novas formas das populações se encontrarem e exercerem a alteridade, de perceberem as diferenças e transporem obstáculos.

Os cenários dos eventos congregam os seguintes momentos :

(a) cerimonial de abertura com uma pajelança,

(b) desfile de abertura assemelhando a abertura de jogos olímpicos, entrada da tocha, seguida das etnias com roupas típicas, 

 (c) a arena -  local dos jogos,

(d) tendas de artesanatos,

 (e)  fórum social – com convidados indígenas e não indígenas nacionais e internacionais,  visando debater temas, tais como educação, saúde, ecologia e juventude, comunicações, utilização de energia solar, reflexões sobre os jogos e esportes indígenas, entre outros.

 

A diversidade dos povos indígenas pode ser visto nas plumagens, pinturas corporais, artesanatos, danças e jogos. Um locutor transmite os jogos, com algumas intervenções de líderes indígenas fornecendo explicações sobre os mesmos. O locutor incentiva o público para torcer, aplaudir, atitude que poderia ser diferente, para que houvesse melhor compreensão da cultura indígena. A mídia muitas vezes distorce o sentido dos jogos e faz comentários que não refletem o que está ocorrendo (tema a ser abordado em outro trabalho).

Transcrevemos abaixo diferentes depoimentos do significados dos Jogos dos Povos Indígenas.

 

                                                           João Terena

“Aqui nós temos cerca de 30 etnias de diferentes regiões do país, praticando esporte, praticando a sua cultura, fazendo um grande intercâmbio de rituais sagrados, com a presença de jovem, presença da criança e presença da mulher”.

 9ª Edição dos Jogos Indígenas Recife-Olinda, 2007

Entrevista realizada pela equipe de pesquisadores do projeto.

 

Cilmara Terena

“As mulheres terenas fazem artesanato para vender nos jogos”. “Hoje em dia [as mulheres] competem com o cabo de guerra, futebol, querendo, através destes jogos indígenas, resgatar o que nós não queremos perder” 

9ª Edição dos Jogos Indígenas Recife-Olinda, 2007

Entrevista realizada pela equipe de pesquisadores do projeto.

 

Tupiri Sucrim Kuikuro

“O meu nome é Tupiri Sucrim, do Pará. Venho de longe, há uns três días que estou aqui filmando para levar pras minhas aldeias, mostrar o que é que funciona ao povo indígena. Eu estou aqui filmando pra mostrar para minha aldeia a cultura que nós estamos usando, como é que é a cultura dos índios”.

               9ª Edição dos Jogos Indígenas Recife-Olinda, 2007

Entrevista realizada pela equipe de pesquisadores do projeto.

 

Luciana Ribaktsa

“Pela primeira vez, viemos participar do encontro das mulheres. Isso pra nós é muito importante, porque muitas vezes os homens falam que eles não dão oportunidade para as mulheres, mas eu acho que eles têm que dar mais oportunidades para as mulheres, porque elas também têm capacidade de aprender muitas coisas e conhecer as outras pessoas, ter amizade, e também ter mais conhecimento sobre os outros irmãos, as outras etnias, porque cada etnia tem seu artesanato, sua cultura diferente”.

“De tradicional, a gente faz mais é a dança, a canoa e os artesanatos, como os colares, os enfeites, é isso que a gente faz lá na nossa comunidade”.

Aldeia Rio Bonito, Campo Novo dos Parecis- 2007

Mediador da entrevista: Mirian Terena

 

Kesia Xavante

“É muito interessante. Nós ganhamos no cabo de guerra e também no futebol”.

Aldeia Rio Bonito, Campo Novo dos Parecis- 2007

Mediador da entrevista: Mirian Terena

 

Elvira Manuqui

 “Abrir espaço para a ‘mulherada’, porque a mulher também tem capacidade pra poder lutar, falar e.só um homem sozinho não faz verão. Sempre a gente tem que ter um cacique do nosso lado, abraçando nosso trabalho. (...) As mulheres indígenas querem chegar ao posto de ser uma cacique, mas respeitando o homem também que é um cacique, um grande líder, porque a gente sabe que a maioria dos caciques é homem, mas isso não impede que a mulher também concorra a ser cacique dentro da comunidade. Então a participação das mulheres aqui está sendo muito importante”.

Aldeia Rio Bonito, Campo Novo dos Parecis- 2007

Mediador da entrevista: Mirian Terena

 

Jucilene Ribaksa

“A participação das mulheres indígenas é muito importante, porque divulga a cultura quando a gente participa dos jogos. Nós precisamos fazer o resgate cultural. Hoje, os jovens falam um pouco a língua, cantam um pouco na língua. Quando tem os jogos, a gente viaja e faz vários contatos, faz amizades com várias etnias. As mulheres indígenas são muito discriminadas. Falam que os índios não são capazes, mas nós somos capazes, sim. Então, tudo isso é muito importante”.

Aldeia Rio Bonito, Campo Novo dos Parecis- 2007

Mediador da entrevista: Mirian Terena

 

Irineu Piradi Umutina

“Meu nome é Irineu, cacique da aldeia Porto Magalhães, meu nome completo: Irineu Iriduce Piradi. Eu sou contra o programa do governo, porque o governo está aprovando barragens a hidrovias na nossa áreas de Paranatinga.  Isso vai acabar nosso rio, os peixes, (...) então por isso que estou fazendo um pedido dessa programa de governo de barragem”.

Aldeia Rio Bonito, Campo Novo dos Parecis- 2007

            Entrevista realizada pela equipe de pesquisadores do projeto

 

Elierso Paresi

“A importância de eu participar desse jogo indígena é muita alegria pro meu povo, minha comunidade, porque a gente achou que nunca havia um povo aqui nessa cidade que tem um sobrenome que é o nome da nossa etnia. Nós esperamos que tenham mais eventos que tragam muitos dos nossos parentes de fora para a nossa cidade, nosso município. Então é essa a importância dos jogos indígenas aqui na cidade de Campo Novo”.

Aldeia Rio Bonito, Campo Novo dos Parecis- 2007

Entrevista realizada pela equipe de pesquisadores do projeto

 

Sussuarana Pataxó

“Hoje na minha aldeia pataxó de Coroa Vermelha tem um grupo de mulheres, que formam uma associação. Então, as mulheres também estão correndo atrás dos direitos delas e estão valorizando a cultura que antes,a mulher não valorizava. Dos 500 anos pra cá, elas viram como são os povos, os índios brasileiros que vivem no Brasil, não só no Brasil, mas em outros paises. Na minha aldeia tem o mar, muita coisa de marisco, tem o mangue também. A gente tem o artesanato que a gente mexe com muitos tipos de sementes, os colares pataxó, a roupa indígena pataxó”.

9ª Edição dos Jogos Indígenas Recife-Olinda, 2007

Entrevista realizada pela equipe de pesquisadores do projeto

 

Raoni Pataxó

“Prá nós, os jogos dos povos indígenas é o momento de relembrar o encontro com os nossos velhos, de reivindicarmos os nossos direitos, a questão da nossa educação, a questão social do povo indígena hoje na sociedade brasileira. Isso faz com que nós fiquemos mais fortes, mais unidos. É um momento que traz a união, um momento de mostrar a nossa cultura, as nossas diversidades culturais, as diversidades de como vivenciamos dentro da nossa comunidade, fora da nossa comunidade também. Porque cada povo tem o seu costume, cada povo tem o seu modo de vida, tem a sua responsabilidade de estar preservando a sua cultura, de estar preservando o meio ambiente, de estar preservando a sua identidade cultural. Esses jogos também nos relembram isso, que podemos reivindicar ao nosso governo brasileiro para que preserve a nossa cultura, preserve o nosso meio ambiente, a nossa terra”.

9ª Edição dos Jogos Indígenas Recife-Olinda, 2007

Entrevista realizada pela equipe de pesquisadores do projeto

 

Davi Kayapó

 

“Os jogos foram muito bons. É a primeira vez que nós estamos vindo aqui em Recife e Olinda. Foi uma viagem cansativa, mas compensou, porque esse contato com outros índios de outras etnias, outros parentes nossos, nos deixou muito feliz. Porque antigamente nós não entravamos em contato, não nos dávamos bem, porque se topássemos, brigávamos uma com a outra. Mas agora tudo mudou, um dança para o outro, um mostra a cultura do outro, aquele que perdeu, vendo aquele costume do outro, retorna voltamos a preservar as danças, não deixamos mais passar e vamos levando assim. Somos indígenas, eu tenho orgulho de ser índio. É só isso que eu tenho para falar”.

 

9ª Edição dos Jogos Indígenas Recife-Olinda, 2007

Entrevista realizada pela equipe de pesquisadores do projeto

 

Depoimentos de líderes e ‘atletas’ nos Jogos dos Povos Indígenas em Fortaleza (Relatório - Rocha Ferreira et al, 2006):

  • Os jogos integram as etnias. Discussão com os parentes. (Pataxó)
  • É importante para conhecer outras etnias. (Terena)
  • Importante para saber das outras etnias e ver que estão pobres, com dificuldade e viver. Divulgar a cultura para branco. Os Paresi perdem a cultura. (Paresi)
  • Importante para encontrar pessoas e trocar cultura. Nos jogos falamos com os parentes e ficamos com a família. (Wai-Wai)
  • A gente vem para apresentar a cultura e trocar experiência. (Kaiapó)
  • Trocar experiência com os parentes (Karajá).
  • É importante para saber das outras etnias. (Javaé)
  • É importante para a aldeia porque tem como trocar experiência. (Xerente)
  • Gostamos para trocar experiência e vender artesanato (Rikbaktsa)
  • A importância dos jogos tradicionais é manter a cultura. Conversam mais sobre suas culturas do que política, pois não entendem muito de política. (Kaiwá)
  • Para o povo a importância é manter a tradição da etnia e tem muito interesse em conhecer e aprender as “coisas” dos brancos. Aqui é o mais bonito. (Xikrin)
  • Para o povo a importância é manter a tradição da etnia e tem muito interesse em conhecer outras etnias, parentes, contato com Carlos Terena (Matis)
  • Melhorar a cultura, deixar viva a tradição, valorização (Gavião Kyikatêje)
  • Apresentar, cantar e manter a tradição (Kanela)
·         Mostrar sua cultura, tradição. Experiência boa. Oportunidade de conhecerem as cidades, os povos, vender artesanatos. Bom. Mostrar a cultura (Enawenê-Nawê – coletiva e tradução Fabrício)
·         Encontro dos irmãos índios, resgate cultural, conhecer, trocar idéias. (Yawalapiti)
·         Nosso espírito – encontros dos Povos Indígenas. Organização indígena. Conhecermos uns aos outros. Nações indígenas. Gosta de valorizar cultura de nossa nação. (Suruí)
·         Consegue levar algumas coisas que sabem. Conhecimento das pessoas que não sabem. E passam a conhecer as culturas diferentes, línguas, danças. (Krahô)
·         Representa a aldeia, divulga e mostra para ao branco que são diferentes (Paracanã)
·         Mostrar a cultura para não perder (Aikewara)
·         Oportunidade para mostra a cultura indígena, continuar a tradição (Manoki)
·         Mostrar sua cultura, tradição (Nambikwara).
·         A importância dos jogos indígenas é continuar a cultura indígena. Eles têm pouco conhecimento da política e querem saber mais para não ficar na dependência dos brancos, que não respeitam sua vontade e também não querem perder a identidade (Manoki).

 

RESUMO DAS FALAS

As falas dos entrevistados convergem para a importância dos Jogos Indígenas em diferentes planos. A oportunidade de estarem juntos e conviverem por alguns dias contribui para a união dos povos indígenas, o sentido de identidade, o intercâmbio cultural e as formas de relacionamento com o mundo não indígena. Os direitos indígenas são discutidos e reivindicados. O exercício político acontece nos fóruns e fora deles. A crescente participação das mulheres nos jogos sugere a sobreposição de papéis que elas exercem atualmente, como atletas, lideranças, mulheres e mães. Os rituais são valorizados e reforçam as identidades étnicas. Muitos outros fatores também mobilizam os grupos indígenas a viajarem quilômetros para participar dos jogos na cidade: vender artesanatos, sair da aldeia, conviver com outras pessoas, participar dos fóruns, exercer política, valorizar a sua própria etnia, filmar, registrar, celebrar, conhecer o mundo e a diversidade cultural, entre tantos outros

 

REFERENCIAS

ROCHA FERREIRA, M.B., FIGUEIRA JR., ÁLVARES, L.D. Relatório dos Jogos Indígenas. Apresentado ao Ministério do Esporte e Comitê Intertribal - Memória e Ciência Indígena, 2006.

ROCHA FERREIRA, M.B., HERNANDEZ, M. VAZQUES, CAMARGO, V.R.T., VON SIMSON, O.R Jogos indígenas, realizações urbanas e construções miméticas. Revista da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Ciência e Cultura. Temas e Tendências. Cultura Indígena. Ano 60, n. 4, 2008.

 

TERENA, M. O Esporte como resgate de Identidade e Cultura.Rocha Ferreira, M. B. et al.. Cultura Corporal Indígena. Guarapuava: Ed. Unicentro, 2003a, p 15-24.

TERENA C. J. O importante não é ganhar, mas celebrar. Revista de História da Biblioteca Nacional, julho 2007b, p. 31. Acesso net em 09/09/2009. http://www.revistadehistoria.com.br/v2/home/?go=detalhe&id=735